quinta-feira, agosto 12, 2004

Um celular esperando ônibus

celular abandonado

Hoje achei um celular numa parada de ônibus - é, vida sem carro é dura, tenho que andar de baú, freqüentar a rodô, cantar "se essa porra não virar, olê, olê, olá!"... Bem, mas eu achei o tal de celular. E aí fiquei uns dois minutos pensando se pegava o dito cujo para descobrir quem era o dono e entregá-lo a ele.

De início, tive preguiça. Pensei em como ia ser chato procurar o cara e combinar uma forma de entregar o aparelho. "Vou ter que dar meu endereço pra pessoa ir buscar lá, explicar como chegar ao meu prédio (não é fácil achar o edifício Beta Studios na CCSW 05, lote 03 do Sudoeste)." Enfim, ia ser um saco.

Aí, pintou meu lado chauvinista. "E se a dona for uma gatinha? Vou conhecê-la, ela vai ficar agradecida, sensibilizada com a minha solidariedade... Não, não, quantas gatinhas pegam ônibus diariamente ao lado do Congresso Nacional? E, pelamordedeus, você só vai ser legal porque existe uma remotíssima possibilidade de conhecer uma mulherzinha!? Toma vergonha na sua cara!"

Finalmente surgiu em minha mente pervertida um pensamento que eu deveria ter tido logo de início: é uma merda perder qualquer coisa, principalmente sem saber onde foi, um celular, então, a maior dor de cabeça. Vai que um mané pega o telefone e rouba, sai passando trote, prejudica a vida do coitado(a) que deu o azar de deixar o troço ali no banquinho da parada de ônibus.

Nesse momento, eu tava sentado bem perto do celula, fazendo de conta que não via, que não era comigo, sem dar conversa pra ele. Ao chegar à acertada conclusão de que tinha que passar a mão no objeto inanimado e ser um bom samaritano, olhei pra ele, fingindo surpresa - "Oh, um celular perdido!", como se alguém mais na parada estivesse aí pro que estava acontecendo ou prestando atenção no meu estúpido teatrinho -, e tomei posse.

Fiquei ali procurando o nome do dono - desconhecido -, tentei ligar pra alguém da agenda - era pré-pago e não tinha crédito - e perdi um zebrinha que ia pro Sudoeste. Quando já estava em casa, alguém ligou procurando o Ezequiel - é, o dono do celula -, eu expliquei o ocorrido e o sujeito anotou meu número pra passar pro legítimo proprietário do aparelho. Ezequiel em pessoa me ligou mais tarde e, como ambos somos desprovidos de carro e eu não trabalho no Congresso - estava lá de passagem -, ainda não definimos como ele vai reaver seu telefone, que repousa silencioso em meu sofá.

Todo esse texto pretensamente engraçadinho esconde uma moral muito séria: como a preguiça, o egoísmo e a falta de iniciativa podem fazer com que a gente não ajude o próximo. Hesitei durante uns 120 segundos para tomar uma atitude simples, que não me atrapalhou em nada e, para o Ezequiel, significou um grande alívio. E é bem provável que várias pessoas na parada de ônibus tenham visto o celular antes de mim e deixado pra lá. Na verdade, não fiz nada de mais. Mas posso fazer muita coisa, podemos fazer muita coisa, ajudar realmente muita gente, se deixarmos a preguiça e o egoísmo de lado, desligarmos a tevê e o computador, “sacrificarmos” um cinema, um fim de semana no clube, e dermos uma olhadinha pro lado, praquele celular abandonado e que precisa apenas que estiquemos a mão pra ele.