Chuva dentro do ônibus
É uma beleza. Você pega um ônibus crente que vai estar protegido da chuva, e descobre que não é bem assim.Hoje tive a minha primeira experiência de voltar do trabalho com São Pedro cuspindo insistentemente lá de cima. E não era uma chuvinha qualquer, era um temporal da porra. Ainda tive sorte de chegar à rodoviária antes do dilúvio.
Entro então no ônibus, sento-me “confortavelmente” num assento vazio do lado esquerdo e vejo que os primeiros pingos batem no vidro da janela. “Tudo bem, já estou aqui dentro, tranqüilo como um grilo, protegido da chuva”, penso. Oh, inocência!
Seguimos pelo Eixo Monumental, os primeiros pingos sendo seguidos por uma metralhadora de água, e eis que as vedações das janelas desse veículo moderníssimo em que me encontro começam a dar demonstrações de que não estão vedando chongas. Uma cachoeirinha se forma e sou obrigado a sentar-me mais próximo do corredor. Sorte que o baú está vazio, assim posso deslocar-me sem problema. Outros usuários do nosso eficiente transporte coletivo não têm tanta sorte assim e são obrigados a levantar-se e ficar no corredor.
Tudo bem, fora uns respingos, ainda estou seco. Só que uma poça vai se formando no assento ao lado do meu. A cada curva para esquerda, esse reservatório de água balança perigosa e ameaçadoramente. Até que não tem jeito, vem o ataque de H2O. Mas graças à minha agilidade, antecipo-me e levanto. Vitória! Oh, ledo engano! Pois a parada em que vou descer está chegando, o temporal continua e vou lá eu ter que enfrentar a fúria sacana dos céus.
Aí percebo como essa nossa cidade tem uma infra-estrutura urbana fantástica. Salto do ônibus na avenida comercial do Sudoeste e o que tenho pela frente? Barro, nada de calçada. Abro meu guarda-chuva comprado a 15 reais em L.A. (Lojas Americanas) – foi mal, Lu, roubei sua piada! – e vou procurando a parte menos enlameada pra me locomover. Chego a um prédio comercial, descanso um minutinho, subo uma encosta de grama e, finalmente, alcanço uma calçada de verdade. Legal, né? Só que nosso sistema de escoamento nota dez e o terreno em elevação à frente fazem com que a calçada seja na verdade uma corredeira ótima para rafting, eu diria que de nível quatro. Saco é que esqueci meu bote, os remos e o colete salva-vidas em casa.
Bem, fazer o quê? Sigo em frente, usando mais a grama ao lado da calçada do que a própria, até que desisto da aventura e me abrigo sob um prédio para dar um tempo. Fico ali lendo um pouco, prendo o guarda-chuva aberto no pé do banco depois de quase vê-lo ser carregado pelo vento e tic-tac-tic-tac, o tempo passa e a intensidade da chuva diminui.
Well, well, hora de retomar a caminhada, mais uns cinco minutos estarei em casa. Mesmo com a chuva já fraquinha, o desafio agora é evitar as poças d’água, que mais parecem fossas submarinas. E com essa iluminação pública sensacional, principalmente no Sudoeste, todo o chão à frente está preto, ou seja, quando menos esperar posso estar quase que literalmente indo para o brejo. Ainda fico preocupado que algum motorista debilóide passe muito próximo do meio-fio e me dê um banho.
Lar, doce lar. Finalmente vou entrando em meu apê, tomando o cuidado de antes descalçar o tênis ensopado – ainda bem que não saí de sapato. As barras da calça também estão todas molhadas e até a camisa ficou úmida atrás com os respingos. Enfim, tô quase tão molhado como ontem, quando joguei futebol debaixo de chuva. Só que ontem pelo menos eu tava me divertindo.

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