Eu não quero ser humano
Muitas vezes tenho vergonha de mim, de fazer parte dessa humanidade cruel. É o caso agora. Vi um documentário chamado À margem da imagem, sobre pessoas que vivem nas ruas de São Paulo. Sem-teto, sem-esperança. Na verdade, alguns têm esperança, conseguem rir da realidade. Eu, não. Nessas horas, a desesperança toma conta de mim.Quando estávamos próximos à virada para o século XXI e ouvíamos todas aquelas previsões catastróficas de que o mundo ia acabar, muitas vezes pensei: “Que acabe!”. É uma grande merda mesmo. Qual o sentido de continuar existindo?
Não tenho do que reclamar. Acabo de comprar um carro novo, sou servidor público concursado da Câmara, não me falta dinheiro. Muito mais importante, tenho família e amigos que me amam. Posso fazer o que quiser, viajar, curtir, ter filhos que poderei educar sem que nada lhes falte, enfim, a vida é belíssima pra mim. O que só me faz sentir, nesse momento, que sou um grande filho da puta por acordar todo dia, me olhar no espelho e nem lembrar que bilhões de pessoas sofrem diariamente, não vivem, sobrevivem, que a natureza está sendo pilhada, que o mundo é dos espertos, dos gananciosos, dos inescrupulosos.
Atualmente, não estou movendo uma palha pra mudar isso. Já me mexi antes, tenho planos de voltar a fazer minha parte, mas que porra de parte é essa? Que grande diferença eu posso fazer? Ninguém precisa me responder: cada pequeno ato faz diferença, se tocarmos a vida de uma só pessoa, já estaremos mudando o mundo. Mesmo? Você acredita nisso? Eu tento acreditar, mas, no fundo, no fundo, não acredito. E o meu coração dói tanto, tanto, não consigo parar de soluçar. Soluços, sem solução.
Vou dormir, vou acordar, vou me olhar no espelho, escovar os dentes, arrumar o cabelo, vou trabalhar. Simples assim. Sem fé nenhuma na humanidade, mas fingindo que não é comigo. Foda-se, sou bem-sucedido, vou rezar pelos pobres, dar esmolas, fazer contribuições para entidades assistencialistas, tentar usar minha profissão de jornalista para que as pessoas sejam mais conscientes e ajudem umas às outras, não sejam corruptas, nem injustas, nem cruéis. Viva! Tudo certo. Não está mais aqui quem falou.

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