Dor
Hoje faz quatro meses que meu pai morreu. No domingo, passei meu primeiro Dia dos Pais sem ele. Almocei com meus irmãos, meus sobrinhos e minha mãe, fui ao cemitério, fui ao chá de bebê de uma amiga, fui ao cinema. E, quando fui dormir, meu coração quase parou. Mas continuou batendo, embora a dor, que eu sinto agora, me faça quase querer que ele pare, como o do meu pai parou. Eu tremi de dor, e tudo o que eu queria era abraçar meu pai, pois ele também deve ter tremido de dor, e se eu pudesse abraçá-lo na hora, quem sabe ele pararia de tremer, e a dor passaria, e o coração continuaria a bater.As imagens na minha mente são traiçoeiras. Elas se escondem, ficam algum tempo sumidas, mas, quando vêm à superfície, são tudo o que eu consigo ver. Não preciso fechar os olhos. Eu vejo meu pai, eu seguro sua mão, mas ela está fria. Ele não pode me ver, ele não pode me ouvir, seus olhos estão fechados. Eu ando de um lado para outro, eu volto lá, e nada mudou. Sua boca entreaberta, por onde saiu seu último suspiro, nada pode dizer quando eu digo que o amo muito. E eu carrego seu caixão até o túmulo, e eu digo quão pior está o mundo agora que meu pai se foi, e eu vejo o caixão descer, e ser coberto de terra, depois concreto e cimento, depois coroas de flores. E hoje resta uma lápide, uma placa, grama plantada em cima, e eu piso sobre o túmulo do meu pai.
Eu durmo, e eu choro. E sonho com meu pai. Mas mesmo no sonho eu sei que ele vai embora. E eu não posso fazer nada. Mesmo que eu continue dormindo. Ele está lá, mas não vai ficar.
