Aventuras do baú
Minhas andanças de ônibus têm sido extremamente divertidas. A cada dia, uma nova aventura. Claro que é um saco ter que esperar o bendito passar, e você perde preciosos minutos dentro do veículo de transporte público até chegar a seu destino (tenho que deixar de ser burro e sempre levar um livro ou revista pra ler e aproveitar esse tempo). No entanto, estou ficando cheio de histórias pra contar, além de reacender reminiscências de minha adolescência, quando andar de busu era regra.Outro dia, melhor teclando, outra noite, por exemplo, vou eu correndo pra rodoviária do Cruzeiro Novo, na tentativa de achar um ônibus que me leve à L2 Sul. Sexta-feira, tarefa inglória, ainda mais porque já eram 21h30 e tinha combinado com minha amiga de chegar à casa dela às 22h.
Claro que, ao aterrissar na rodoviária, vi pelos horários que tinha perdido o ônibus por uns cinco minutos, e outro só passaria dali a cerca de uma hora. Ora, ora, que grande bosta! Que fazer? Descolar uma lotação pra Rodoviária do Plano Piloto e de lá fazer a baldeação (hahaha!, baldeação é demais!) pra L2.
Mas eis que, antes de pegar uma van, chega um ônibus com destino à Rodoviária. Pulei dentro, sem pestanejar. Nem idéia do trajeto. E não é que o baú vai tomando o rumo do Setor Policial Sul, seguindo determinado em direção ao Eixo L? Que sorte da porra! Saltei na parada da 212 Sul, praticamente na porta do apê da minha amiga. Muito melhor que ir pra L2. E cheguei lá pontualmente às 22h.
Legal desse negócio de não saber o trajeto do ônibus é que você conhece lugares novos, vai viajando como se estivesse num city tour. Às vezes não é tão legal, quando você começa a ficar com medo de onde diabos o motorista tá te levando. “Cacete, ele fez essa curva, eu pensei que ia seguir reto. E agora? Fudeu!” Bem, por enquanto, mesmo com voltas a mais, sempre cheguei aonde queria. Mas peguei um zebrinha desgraçado outro dia, com destino ao Setor de Autarquias Sul, que levou QUARENTA E CINCO MINUTOS, rodando, rodando e rodando, até chegar lá. Já estava a ponto de dar um tiro na testa.
Outra coisa interessante é essa tendência que quase todos temos de, ao entrar no ônibus, sempre procurar um banco totalmente vazio, pra não ter que sentar ao lado de ninguém. Nada de socializar-se. Quando não há opção, começa o escrutínio pra decidir ao lado de quem assentar-se. O olhar vai passando pelo interior do ônibus: “Homem, não. Homem, não. Mulher gorda, não. Homem, não. Mulher com criança de colo, não”. Eu ia escrever: “Gatinha, aí vou eu!”. Mas isso é quase um conto de fadas. Encontrar uma gatinha desacompanhada num ônibus é tão provável quanto o Rubinho ganhar do Schumacher. O negócio então é se conformar e sentar ao lado de uma mulherzinha qualquer, e torcer pra que tenha um perfume razoável (cara, como eu sou preconceituoso!).
Vem então uma reminiscência de “era uma vez, quando eu tinha uns 15 anos, e encontrei uma gatinha no ônibus”. Eu estava de pé, com uma mochila da Company pesadíssima, de frente para a garota, sentadinha e confortável. A linda menina, solícita, oferece-se para segurar meus pertences. Que gracinha! Sorri pra ela, que sorriu pra mim. Pintou um clima de romance. O que fiz? Nada, zero. O bocózão (tirei essa do fundo do baú) não teve coragem nem de trocar uma palavra com a menina. Ela foi embora – devo ter dito um “tchau” tímido, envergonhado e ridículo – e nossos caminhos nunca mais se cruzaram. Uma bela história de amor não se realizou.
É, triste. Mas, olhem só, quem sabe o destino não me deu uma nova chance, já que novamente sou usuário de ônibus, agora muito mais experiente e capaz de conversar com uma moça sem gaguejar e ruborizar? Tenho que arranjar uma mochila.

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